A partir de setembro a programação do Cine Clubinho será postada no blog do Coletivo Bromidrose.
Dia 29/08 o Cine Clubinho exibirá os curtas-metragem “31 De Março Para Todos Os Santos De 64” (2003) e “Ópio Do Povo” do diretor Petter Baiestorf. Em seguida será apresentado o documentário “A Opinião Pública” (1967) de Arnaldo Jabor.
A Opinião Pública é o primeiro longa-metragem de Jabor e consiste em um retrato da classe média de Copacabana após o golpe militar de 64. Foi filmado através do método que se convencionou chamar de cinema verdade, onde o cinegrafista procura captar as imagens com a menor interferência sobre o real. As entrevistas são feitas nas ruas com a tomada de som direta, onde o entrevistador aborda as pessoas com um gravador portátil. Através das imagens e relatos colhidos vem à tona o senso comum da classe média da época (especificamente a carioca) e a sua contribuição para a concretização do golpe militar de 64 através de sua ideologia e comportamento reacionários.
O diretor
Arnaldo Jabor nasceu em 12 de dezembro de 1940 no Rio de Janeiro. Começou a trabalhar como Jornalista em 1962 para o veículo “O Metropolitano”, ligado ao movimento estudantil. Trabalhou como assistente de Paulo César Saraceni Leon Hirszman e Carlos Diegues durante o período do Cinema Novo. Seu primeiro longa-metragem foi “A Opinião Pública” de 1967. Em 1970, lançou “Pindorama”, seu primeiro longa de ficção. Jabor trabalhou como diretor de cinema até o começo dos anos 90, quando o presidente Fernado Collor praticamente extinguiu a produção cinematográfica nacional. Passou então a trabalhar para a Folha de São Paulo em 1991 e em 1995 para a Globo. Em sua produção cinematográfica destacam-se “Toda Nudez Será Castigada” (1973) e “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1984). Conhecido por suas crônicas ácidas e satíricas, ele lançou cinco coletâneas com seus textos sobre os títulos: “Os Canibais Estão Na Sala de Jantar” (1993), “Brasil Na Cabeça” (1995), “Sanduíches de Realidade” (1997), “A Invasão Das Salsichas Gigantes” e “Amor é Prosa, Sexo é Poesia” (2004).
No dia 22/08, o Cine Clubinho exibirá o curta “Que buceta do
caralho, pobre só se fode!!!” (2007) de Petter Baiesatorf. Finalizado
recentemente, o curta foi enviado pelo diretor ao Clubinho para uma
exibição experimental e agora será exibido oficialmente. Em seguida
apresentaremos o longa-metragem “Família do Barulho” (1970) de Júlio
Bressane. Esse filme que tem no elenco Helena Ignez, Guará (Guaracy
Rodrigues), Kleber Santos, Maria Gladys, Grande Otelo e Poty foi o
primeiro produzido pela produtora Belair, uma parceria de Bressane com
Rogério Sganzerla. Filmado em quatro dias o filme mostra o envolvimento
de um picareta com uma família classe média. Continuando com o
experimentalismo anárquico que já vinha sendo feito desde o final dos
anos 60 pelos realizadores da corrente intitulada como Cinema Marginal,
o filme permaneceu em exibição por 15 dias e foi recolhido pela
polícia.
A produtora Belair teve vida curta, durou até 1971,
quando seus membros deixaram o Brasil e foram para Londres, fugindo da
repressão. Além de “A Família do Barulho”, também foram produzidos pela
Belair “Copacabana Mon Amour”, “Sem Essa, Aranha”, “Betty Bomba A
Exibicionista”; “Cuidado Madame” e “Barão Olavo, O Terrível”.
“Nós estamos fazendo os melhores filmes do mundo e vocês não estão entendendo nada”
Júlio Bressane
O diretor
Nascido no Rio de Janeiro em 13 de fevereiro de1946, viajou para os EUA
com 11 anos, onde ganhou uma câmera e um projetor 16mm. Foi assistente
de direção de “Menino de Engenho” (1965) de Walter Lima Jr. e “Viagem
ao Fim do Mundo” (1968) de Fernando Campos. Dirigiu o curta-metragem
“Lima Barreto – Trajetória” (1966) e o longa “Bethânia Bem de Perto”
(1966) com Eduardo Escorel. Seu primeiro longa-metragem autoral foi
“Cara a Cara” (1967). Em 1969 fez “O Anjo Nasceu” e “Matou A Família e
Foi ao Cinema”, filmados em 7 e 12 dias respectivamente, já pela
produtora Belair, fundada em parceria com Rogério Sganzerla. Foi autor
de diversos títulos experimentais feitos entre o final da década de 60
e começo de 70 integrando a corrente intitulada como Cinema Marginal ao
lado de nomes como Ozualdo Candeias, José Mojica Marins, Rogério
Sganzerla, Andréa Tonacci e Luiz Rosemberg Filho. Os filmes produzidos
por essa geração inovaram o modo de fazer cinema no Brasil através de
trabalhos autorais cheios de referências pop, enredo fragmentado e
tiradas sarcásticas, em produções de baixo orçamento e que foram pouco
assistidos na época. Ainda pela produtora Belair, Bressane fez “A
Família do Barulho”, “Barão Olavo, o Horrível” e “Cuidado Madame” entre
1970 e 1971. Ainda em 71 foi convocado pelos militares para prestar
depoimento a respeito de seus filmes. Exilou-se em Londres, onde filmou
“Memórias de Um Estrangulador de Loiras” (1971). Em 1972 foi a vez “A
Fada do Oriente”(1972), filmado em Marrocos. De volta ao Brasil fez “O
Rei do Baralho” (1972), “Cinema Inocente” (1979), “Tabu” (1982), “Brás
Cubas” (1985) e “O Mandarim “ (1995). Em 2001 fez “Dias de Nietsche em
Turim”, premiado no Festival de Veneza. Em 2005 terminou “Cleópatra”
com Alessandra Negrini e em 2007 iniciou a pré-produção de “A Erva do
Rato” inspirado nos contos “Um Esqueleto” e “A Causa Secreta” de
Machado de Assis.
No dia 15/08 o Cine Clubinho abrirá a sessão com o curta-metragem “Boi Bom” (1998) de Petter Baiestorf e na seqüência apresentará o longa “Motoboys – Vida Loca” (2004) de Caíto Ortiz.
Boi Bom
Esse
curta-metragem produzido por Petter Baiestorf faz parte da “fase 98” de
sua produtora, que após obter fracasso financeiro com os filmes “Eles
Comem Sua Carne”, “Caquinha Superstar A Go-Go”, “Blerghhh” e “Bondage”
(com direito a trilha sonora em CD para Caquinha Superstar A Go-Go
feita pela banda paulista Trap em parceria com a Stropharia Discos e
Abrigo Nuclear records), resolve pegar pesado nas transgressões e não
respeitar nenhum comportamento ou padrão moral. São também dessa fase o
curta “Deus (O Matador de Sementinhas)” e os longas “Gore Gore Gays” e
“Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos”.
Motoboys – Vida Loca (2004)
Esse
documentário é o primeiro longa-metragem de Caíto Ortiz e mostra
através da vida de cinco motoboys em São Paulo (incluindo uma motogirl)
o cotidiano dessa profissão de risco que cresce cada vez mais na
metrópole (na época da filmagem a estimativa era de 250 mil motoboys) e
já integra o cenário caótico que é o trânsito na cidade. Além de
médicos, taxistas e motoristas o filme traz entrevistas com Paulo
Mendes da Rocha, Marta Suplicy, Washington Olivetto, Gilberto
Dimenstein, Serginho Groisman, Carlos Zaratini, Roberto Scaringela,
J.R. Duran, Rafic Farah, Jacob Pinheiro Goldberg e Xis. Totalmente
filmado com câmeras digitais, o filme ganhou o prêmio de melhor
documentário na 27ª Mostra de São Paulo.
Caíto Ortiz
Nasceu em 1971 no Rio de Janeiro. Estudou cinema NYU (Universidade de Nova York), onde se especializou em Direção de Atores e Direção de Fotografia. Estreou como diretor no curta “Esperando Loreta” de 1994, no ano seguinte realizou outro curta também como diretor: “O Beijo”, além de ter trabalhado com fotografia em 6 produções feitas no exterior. Em 1998 fotografou em Nova York o longa “Running Short” de Mario Mandujano. Seu primeiro longa é o documentário “Motoboys – Vida Loca” de 2004. Em 2005 fez “O Dia Em Que O Brasil Esteve Aqui” sobre o amistoso realizado pela seleção brasileira de futebol no Haiti. Hoje é diretor da Pródigo Filmes.
No dia 08/08, o Cine Clubinho exibirá “A Curtição do Avacalho” (2006) de Petter Baiestorf e o documentário “Baiestorf: Filmes de Sangueira e Mulher Pelada” sobre o diretor natural de Palmitos Santa catarina, feito em 2005 por Christian Caselli.
Curtição do Avacalho (2006)
Esse filme presta uma homenagem ao Cinema Marginal da década de 70 e foi editado por Gurcius Gewdner da Bulhorgia Produções. “Canibais em pleno século 21?” é o que pergunta o padre Carcass, cercado de galinhas em uma das primeiras cenas do filme. Ele é um dos personagens dessa avacalhação feita com o cinema por Baierstof. Juanito, conhecido pelos moradores como Santeria e que tem sua mão decepada após tentar matar com um facão as vozes que lhe incomodavam, é convencido pelo Padre de que tem uma missão. Enquanto isso Bela está fazendo um boquete em seu namorado Sardu em meio a um matagal. Mas logo chegam Carcass e Juanito, que com uma lança no lugar do braço decepado ataca Sardu que cai no chão enquanto a garota corre. Juanito vai atrás dela e quando está prestes a matá-la é impedido por Carcass, que atira um raio invisível na garota que a faz derreter. O namorado dela que não havia morrido, vai em seu encalço, é atingido de raspão pela bazuca do padre e perde a orelha. Aí começa a avacalhação. Dois caras resolvem fazer uma revolução contra o mundo todo e formam o “exército de dois homens sós”, que se ocupam em lutar contra os mortos-vivos que aparecem em cena. Um cientista louco que tem como companhia uma cabeça decepada alia-se ao Padre em um plano de fazer um clone de Jesus Cristo usando seu DNA e a carne derretida do casal. A múmia de Cristo cria vida e foge do laboratório. A saga não tem um final, ela simplesmente avacalha. Cenas dos bastidores são intercaladas ao enredo. Os atores aparecem lendo suas falas no roteiro. Baierstof entre em cena dizendo frases como : “Todo governo é indesejável e desnecessário”. Juanito é atingido por um tiro disparado pelos revolucionários do exército de dois e de seu peito saem fitas VHS. Do Padre Carcass, que faz um rasgo no próprio peito com uma faca, saem moedas. Em meio às cenas aparecem cartazes com dizeres como: “experimente a diferença”. O filme contém ainda mensagens subliminares: textos e imagens anti-católicas e pornográficas que só poderiam ser vistas quadro a quadro. Atuam no filme: Elio Copini, Coffin Souza, Everson Schultz, Kika, Carli Bortolanza, Ivan Pohl, Camila, Sil e Jovane Benedetti.
A partir do dia 01/08 as sessões do Cine Clubinho serão realizadas
às quartas feiras e não mais às sextas como vinha acontecendo.
Nesse dia serão exibidos os seguintes filmes:
Brasil (1981), Rogério Sganzerla
O
filme foi feito durante os bastidores da gravação do álbum homônimo de
João Gilberto que conta com a participação de Caetano Veloso, Gilberto
Gil e Maria Bethânia. Através da montagem, faz uma retrospectiva com
imagens de diversas personalidades presentes no cine-jornal brasileiro
de 40 como Orson Welles, Getúlio Vargas, Ary Barroso, Dorival Caymmi,
Grande Otelo, Vinícius de Moraes, Richard Wilson, Eros Volusia, os
jangadeiros (da travessia Fortaleza – Rio), Jacaré (José Olímpio
Meira), Jerônimo , Tatá, Gilberto Freire e Carlos Drummond de Andrade
enquanto é executada a faixa Aquarela do Brasil de Ary Barroso. Ganhou
o prêmio de melhor montagem no festival de Brasília em 1982.
Os Cafajestes (1962), Ruy Guerra
Esse
longa-metragem foi rodado em 1961 e narra a história de um playboy que,
ao perceber que seu pai vai falir, arma um plano para arrancar dinheiro
de seu tio rico através de chantagem, fazendo fotos dele com a amante.
Para executar seu plano conta com um ajudante pobre a quem oferece um
carro como recompensa. Esse filme produzido durante a safra do Cinema
Novo, contém vários elementos de linguagem que seriam utilizados no
experimentalismo dos filmes do Cinema Marginal feitos no final da
década. Contém o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, em uma plano
sequência de quatro minutos com Norma Bengell, o que gerou problemas
com a censura. Sofreu censura também de seu produtor Jece Valadão que
cortou a cena do final do filme. No elenco estão Jece Valadão, Norma
Bengell, Daniel Filho, Lucy de Carvalho, Glauce Rocha, Hugo Caravana,
Germana Delamare, Fátima Sommer, Aline Silvia, Mariana Ferraz.
Ruy Guerra
Nasceu
em Moçambique, em 1931 em Lourenço Marques, hoje Maputo, filho de
portugueses. Além de diretor, Ruy Guerra também atua como produtor,
ator, montador e diretor de fotografia.
Deixou seu país com 19 anos,
depois de ter participado de movimentos anti-racistas e
pró-independência, além de já escrever críticas de cinema e fazer
curtas-metragem em 8mm. Estudou em Paris, no IDHEC (Instituto
de Altos Estudos Cinematográficos) de 1952 a 1954. Ainda na frança
trabalhou como assistente de câmera e direção. Radicou-se no Brasil em
1958. Em 1961 faz , como diretorseu primeiro longa-metragem autoral Os
Cafagestes. Ruy Guerra fez parte do Cinema Novo brasileiro, durante os
anos 60 e incorporou ao seus filmes muitos elementos da Nouvelle Vague
francesa, embora discorde do posicionamento direitista desse movimento.
Rogério Sganzerla
Nasceu
em Joaçaba (SC) no ano de 1946. Nos anos 60, trabalhou no jornal O
Estado de São Paulo em um suplemento literário, escrevendo sobre cinema.
Depois
de realizar dois filmes curta metragem ele lança em 1968 seu primeiro
longa “O Bandido da Luz Vermelha”. Esse filme marcou o movimento
conhecido como Cinema Marginal, originado no bairro do centro, na
região conhecia como “A Boca do Lixo” e inaugurado um ano antes com o
filme “A margem” de Ozualdo R. Candeias. Outros nomes do Cinema
Marginal foram Júlio Bressane, Carlos Reichenbach, José Mojica Marins e
Andrea Tonacci.. Sganzerla propôs a Estética do Lixo, utilizando-se das
sobras, dos resíduos para fazer cinema, em contraposição à Estética da
Fome de Glauber Rocha, principal representante do Cinema Novo. Para
Sganzerla, após seu período revolucionário, o Cinema Novo tornou-se um
movimento de elite, conservador de direita.
Faleceu em decorrência
de um tumor no cérebro em 9 de janeiro de 2004 pouco depois de concluir
seu último filme “O Signo do Caos”.
“Xilogravuras e um pouco de música” foi inaugurada na última quarta-feira,
dia 25 de julho, no AAMAM
Ao som de Noel Rosa, Ute Lemper, Kurt Weill, entre outros, a artista plástica Flávia Yue, inaugura exposição com trabalhos especialmente concebidos para o bar do Museu da Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna – AAMAM. Destinado a artistas que queiram mostrar sua produção em arte contemporânea, de maneira independente e experimental, o espaço foi aberto em fevereiro de 2005, e desde então vem mantendo uma programação periódica.
Graduada em Artes Plásticas pela USP, onde atualmente cursa o mestrado em Poéticas Visuais, Flávia Yue, 30, já participou de exposições coletivas e individuais dentro e fora do país, entre elas: Individuais Simultâneas no Museu de Arte de Ribeirão Preto, com prêmio aquisição (2006) e O Ano do Brasil na França na Cité Internationale des Arts e Michelle Broutta (2005) em Paris.
Na mostra do Bar do Museu, a artista traz xilogravuras que sugerem um ambiente cinematográfico do período silencioso, já que se apresentam em imagens simulando as cartelas de texto da época, com molduras e espaço para texto. As imagens, porém, não revelam uma narrativa, como também não apresentam quase nada em texto; mostram objetos pouco descritivos, às vezes um tanto ambíguos, que nos fazem imaginá-los como personagens de teatro.
As imagens são acompanhadas de uma trilha sonora composta por músicas de cabaré, como a música de Noel Rosa, intitulada “Que absurdo senhor Ministro”, que com seu refrão “É futurismo, menina, é futurismo”, dá à mostra o “tom” pretendido. Completam a trilha outros compositores que ressaltam a relação teatro x cinema x música como a alemã Ute Lemper, Kurt Weill, Marlene Dietrich, entre outros.
Sobre a artista
Em 2003 e 2004, Flávia Yue fez uma mostra de seus vídeos em salas de cinema de São Paulo, projetando curtas antes da programação de cada sala. Aderiram a este projeto a Sala Cinemateca, MIS, CINUSP, CCSP, CCBB e Auditório Banespa da PUC.
A artista participou ainda da 13° Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira (2005), em Portugal, do Programa Anual de Exposições no Centro Cultural São Paulo (2002) e da I Bienal de Gravura de Santo André, com prêmio aquisição (2002).
Sobre o espaço
A exposição “Coisas Legais e Outras Nem Tanto”, do artista e curador Claudinei Roberto, abriu o Bar do Museu em 2005. De lá para cá, artistas que se destacaram em sua trajetória principalmente pelo percurso percorrido, têm dado sua contribuição para a programação do espaço. São eles: Marco Willians, Aline Os, Vitor Iwasso, Nilton Bueno , Paula Galasso, Flavia Ocaranza, Tais Cabral , Adriana Siqueira, Cleide Yamasaki, Eurico Lopes , Edu Marin Kessedjian, Rubens Espírito Santo e Bartolomeo Gelpi.
Exposição: “Xilogravuras e um pouco de Música” – Flávia Yue
Local: Bar do Museu da AAMAM
End: Av.Ipiranga 324, bloco C, sobreloja Tel: 3259 0157
Data: de 25
de julho a 24 de agosto das 16h30 às 21h
Fonte: Inês Martins (Tikun Comunicação)
No dia 27/07, o Cine Clubinho exibirá o documentário “Estamira” (2005) de Marcos Prado.
“Eu Estamira, sou a visão de cada um.
Ninguém
pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira. E eu me sinto
orgulho e tristeza por isso. Porque eles, os astros Negativos
ofensivos, sujam os espaço e quer-me. Quer-me, e suja tudo.
A
criação toda é abstrata. Os espaço inteiro é abstrato. A água é
abstrato. O fogo é abstrato. Tudo é abstrato. Estamira também é
abstrato.”
Assim se define Estamira, a personagem da vida real,
registrada por Marcos Prado através da lente de sua câmera. Durante o
filme Estamira revela uma sabedoria incomum, que não provem de livros,
mas de uma crua experiência de vida. “Foi combinado alimentai-vos o
corpo com o suor do próprio rosto, não foi com sacrifício. Sacrifício é
uma coisa, agora, trabalhar é outra coisa. Absoluto. Absoluto”, define
ela. O seu trabalho é de Catadora no Lixão de Jardim Gramacho, no
município Duque de Caxias, próximo à Baía de Guanabara. De lá ela tira
a sua sobrevivência e o conhecimento de vida, embora seja por muitos
considerada louca e feiticeira. Marcos Prado começou a filmar o Lixão
em 1994 . Em1996, recebeu o “IX Prêmio Marc Ferrez de Fotografia”,
promovido pela Funarte. Em 1997, a prefeitura continuou um projeto
estabelecido após o ECO-92 de transformar o
Lixão em um aterro sanitário, com previsão de concluir a obra em 2005.
Marcos Prado resolveu acompanhar a empreitada e continuou a voltar ao
lugar para fazer imagens. Com o tempo, o aspecto e a situação física do
Lixão foi melhorando, porém os Catadores aumentavam em número:
ex-traficantes, ex-presidiários, ex-trabalhadores, ex-domésticas,
jovens e velhos desempregados. Em 2002 conheceu Estamira, com quem
conversou e fez amizade. Decidiu fazer o documentário quando, algum
tempo depois ela lhe perguntou: “sabe qual a sua missão?” E ela mesmo
respondeu: “A sua missão é revelar a minha missão”.
O diretor
Marcos Prado nasceu no Rio de Janeiro em 1961. É fotógrafo e documentarista. Além de “Estamira” que dirigiu, produziu “Os Carvoeiros” (1999), dirigido por Nigel Noble e baseado no livro homônimo de sua autoria e “Ônibus 174” (2002) de José Padilha e Felipe Lacerda. Em 2005 lançou seu segundo livro chamado “Jardim Gramacho”, sobre a história desse Lixão que vem acompanhando desde 1994 e onde filmou “Estamira”. Fotos suas estão nos acervos permanentes do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Assis Chateaubriand (MASP) de São Paulo. Foi premiado com o World Press Photo 92 e o Focus on Your World 92 da ONU. Dirigiu programas de televisão para a NBC, National Greographic Television e Globosat e teve fotos publicadas em diversos jornais e revistas como Trip, Veja, Folha de São Paulo e O Globo.
Na próxima sexta-feira, dia 20/07, o Cine Clubinho exibirá “The Warriors” (EUA, 1979) de Walter Hill. A história se desenrola em Nova York, em um futuro onde as gangues são mais numerosas que a polícia. O líder do grupo principal promove uma reunião com todas as gangues para fazer um acordo de união entre elas de forma a terem o controle total da cidade. Mas, durante esse evento ele é assassinado e um grupo da periferia acaba levando a culpa. Para se safar eles terão de atravessar a cidade e enfrentar as outras gangues que estão em seu encalço. Nessa mesma sessão, antes da exibição de “The Warriors”, será apresentado o curta “Vai Tomar no Orifício Pomposo” do diretor Petter Baierstof, que, desde 1992 vem produzindo filmes trash, com alto grau de escatologia e o mínimo de recursos possíveis, de forma absurdamente caseira. Baierstof vem se firmando cada vez mais como um cineasta maldito, sem a menor intenção de ser agregado ao sistema oficial de produção de filmes nacionais, o que inclusive evita. Seus filmes são feitos segundo o sistema que ele denominou “Kanibaru Sinema ou Métodos Para Fazer Filme Sem Dinheiro”, que pode ser encontrado no “Manifesto Canibal”, também de sua autoria.
Os diretores
Walter Hill nasceu em 10 de janeiro de 1942 em Long Beach, na Califórnia. Começou a fazer cinema após trabalhar para Sam Peckinpah em “The Getaway”. É um admirador do gênero western e do diretor John Ford. Ficou conhecido por fazer um revival desse gênero em seus filmes. O primeiro deles como diretor foi “Hard Times” de 1975 com James Coburn e Charles Bronson, em 1978 filmou “The Driver” e, em 1979 “The Warriors”, seu filme mais conhecido. Continuou atuando como diretor até os anos 90. Também foi roteirista de diversos filmes e, como produtor fez “Alien” (1979), “Alien 3” (1992) e “Alien Ressurrection” (1997), entre outros.
Petter Baierstof nasceu em 13 de novembro de 1974, na vila de Oldenburgo, na cidade de Palmitos em Santa Catarina. Em 1988 começou a publicar seus poemas anti-religiosos em fanzines. A partir de 1992, passou a fazer seus próprios: “Arghhh” (1992), “Necrofilia” (1992), “Clássicos Canibal” (1994), “Pus Diet” (1994), “Brazilian Trash Cinema” (2000), “O Viajante Cósmico” (2003) e “Bebuns Bêbados Que Escrevem” (2003). Também em 1992, junto de seu colega E.B. Toniolli montou a Canibal Produções Literárias, que inicialmente tinha a intenção de editar livros. Porém nessa época ele já colecionava filmes em VHS e pensava na possibilidade de realizar o seu próprio. Isso aconteceu em 1993, com “Criaturas Hediondas”, filmado em VHS. Baiestorf participa do festival “HorrorCon”, onde conhece Cesar “Coffin”Souza (da Mabuse Produções), com que se associaria em 1996 formando a “Canibal – Mabuse Produções”. Porém, antes disso, em 2005, já com a atuação de Coffin Souza ele filma em quatro dias “O Monstro Legume do Espaço”, que já estava escrito. O filme vendeu 500 cópias em 6 meses, com distribuição independente, já que na época os filmes trash estavam na moda entre a classe média brasileira, o que conferiu a “O Monstro Legume do Espaço” uma aura cult e tornou Baiestorf conhecido fora do underground. Com a grana que faturou, em 1996, ele roda quatro longas: “Eles Comem Sua Carne”, “Caquinha Superstar A Go-Go”, “Blerghhh” e “Bondage” com direito a trilha sonora para “Caquinha Superstar A Go-Go” composta pela banda paulistana Trap em parceria com Stropharia Discos e Abrigo Nuclear Records e mais curtas-experimentais. Devido ao fracasso financeiro dessa safra, em 1998 a Canibal-Mabuse resolve radicalizar em termos de trangressão com “Gore Gore Gays” e “Sacanagens Bestiais dos Arcanjos Fálicos”, além dos curtas “Boi Bom” e “Deus (O matador de Sementinhas)”. Foram censurados em todas as mostras da época.
Então Baiestorf resolve filmar, junto de Carli Bortolanza, José Salles, Jorge Timm e E.B. Toniolli um road movie experimental intitulado “Super Chacrinha e seu amigo Ultra-Shit em crise v.s Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha (ou: Ainda bem que Jimi Hendrix Morreu)” em uma viagem de carro de quatro meses pelo sul do Brasil, com roteiro não linear escrito durante as filmagens. O filme realizado pela produtora “Caos Filmes” é uma homenagem ao Cinema Marginal Brasileiro. O filme não foi lançado, apenas exibido em mostras. Em 1999 a “Canibal – Mabuse Produções” lança seu último filme, um trash sobre zumbis, intitulado “Zombio”, rodado em cinco dias com pouco orçamento e que se tornou um dos filmes mais lucrativos de Baierstoff. Depois desse filme, ele termina sua parceria com Souza. A partir de 2000, agora como “Canibal Filmes”, a produtora lança coletâneas como “Festival Psicotrônico Vol. 1” com treze curtas feitos entre 1995 a 1998 e “Minimalismo Surreal Vol.1”. Em 2001 junto de Cesar Souza e Elio Coprini idealizou a “N.A.V.E. (Núcleo Associado de Vídeo Experimental de Palmitos)”. Em 2002 escreveu o “Manifesto Canibal” e, junto de Cesar Souza organizou os alicerces do KANIBARU SINEMA. Bierstof continua produzindo até hoje curtas e longas e participando de inúmeras produções independentes dos mais diversos formatos. Também escreveu livros surrealistas como “Defecando Urros” (1997), “Expurgando Líquidos Matinais” (1998), “Surreal” (2000), e “Um Treponema Pallidum Mutante Atrapalhando a Vida Amorosa de Um Xanthorrohea Australis Apaixonado” (2002), participou da edição do jornal poético “Salvador Daqui”editado por Elio Copini e Éder Meneghini e tocou nas bandas “Cadaverous Cloacous Regurgitous” de gore-noise em 1993 e “Smelling Little Girl´s Pussy” de industrial harsh, em 1999.
O“Manifesto Canibal” na íntegra, capas e sinopses dos filmes de Petter Baierstof assim como mais informações sobre o diretor podem ser encontrados em: http://www.canibalfilmes.bulhorgia.com.br
Na próxima sexta-feira, dia 13/07, o Cine Clubinho exibirá “Grass” (1999), um documentário do diretor canadense Ron Mann. O filme narra, através de dados históricos, a verdadeira história da guerra travada contra o uso da maconha nos Estados Unidos ao longo do século 20. Desde a época em que era associada aos Mexicanos, passando por sua chegada à classe média até a difusão do seu uso pela contracultura. O diretor aborda os interesses políticos e econômicos que moveram esse levante moralista, que custou uma enorme quantia em dinheiro e foi responsável pela prisão de muitas pessoas. Contendo muitos filmes e músicas de época um dos pontos altos são as antigas e absurdas campanhas publicitárias anti-drogas recuperadas. Embora apresente entrevistas com usuários e pessoas pró-legalização, o foco do filme é o insano conservadorismo norte-americano. Foi eleito como o melhor documentário de 2000 pela Academia Canadense de Cinema e TV.
O diretor
Ron Mann nasceu em 13 de Junho de 1958, no Canadá e se formou pela Universidade de Toronto. Seus documentários tem como tema principal aspectos da cultura popular norte americana. O primeiro deles “Imagine the Sound” (1981) traz depoimentos e performances dos pioneiros do Free Jazz nos anos 60. Em 1982 fez “Poetry in Motion”, em 1988 “Comic Book Confidential”, em 1991 “Twist” com entrevistas e arquivos dessa fase do rock,n roll. Fez ainda “Dream Tower” (1994), Grass (1999) sobre a criminalização da maconha e “Go Further” (2003).